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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Molusco e Molusquetes na Cidade Toco

Ontem eu voltei para casa de ônibus.

Normalmente essa mesma linha nesse horário é vazia e o motorista cumpre o seu ritual diário de rali de regularidade, com a fiscalização de olho no GPS para saber a posição do veículo dentro da rota e do horário em cada checkpoint.

Ontem estava quase tudo fora do normal para aquela linha, naquele horário. Pessoas comprimidas, motorista com a cabeça nas nuvens, fiscalização comicamente sem o poder de pressionar esse que é o maior herói da empresa. A única coisa dentro do normal era o passageiro dentro dos seus limites de indignidade conferidos pelo sistema egoísta implantado pelos senhores do feudo do transporte coletivo urbano goianiense.

O trânsito estava bem mais travado que o normal para aquele horário das 18 horas e 30 minutos. Parecia até São Paulo. Foi interessante que deu para ver como as coisas vão ficar daqui alguns meses se a progressão de vendas de veículos continuar sem acontecer uma respectiva implantação de ciclovias na cidade. O bom disso é que o ônibus não podia ir rápido, o motorista não podia dirigir como um louco para cumprir a tabela do rali da RMTC e os fiscais não podiam cobrar nada deles. Resultado: ontem eu não andei no que costumo chamar de carroça voadora que é, hipoteticamente, uma turbina com uma carroça amarrada em cima. Quando a carroça voadora funciona, o passageiro que se segure!

As pessoas todas achando engraçado o que acontecia às suas dignidades, demonstrando a forma amistosa e clara de como o brasileiro aprendeu levar na brincadeira as humilhações do dia-a-dia. Quase todos sorrindo e fazendo ironias a respeito da visita do presidente da República à nossa cidade num evento que travou todo o centro da cidade e que aconteceu na Praça Cívica. Naquele momento, uns diziam "Ainda bem que não votei nele!", outro dizia "Ih! Eu votei! Hahahaha!!!", ainda outro interrogava "Quem aqui gosta do Lula!?".

Na verdade, todos ali sabiam que o presidente, pessoalmente, nada tinha a ver com o caos que dominou o trânsito e os ônibus naquele dia, mas sim a necessidade da prefeitura e dos governos estadual e federal de fazer um evento que "marcasse" a presença dele na cidade. Muitos deram a idéia de que a próxima visita seja realizada em um local mais apropriado como o Estádio Serra Dourada ou o Autódromo Ayrton Senna que ficam na saída sul e longe do centro e da rotina da maioria da população que tem que manter o aparelho produtivo goianiense funcionando.

Bendita tradição do "marketing do barulho" da política brasileira: me fez chegar em casa um pouco mais tarde, preocupado com a H1N1, todo amarrotado, conferindo a minha carteira no bolso, conhecendo mais com um bocado de gente, e ainda por cima, com tranqüilidade, pois o ônibus foi devagar desta vez.

É... A dignidade custa mais do que tantas ações do governo e muito, muito mais do que os R$ 2,25 do vale-transporte que sou obrigado a comprar em escassos pontos de venda que não obtém disso lucro significativo porque tiraram o emprego dos cobradores.